terça-feira, 8 de outubro de 2013

Mythos - La Loba: Recuperar a si mesmo

Semana passada conversamos sobre violência sexual (se você não viu esse artigo, clique aqui para ler). É um tema tenso e polêmico, que gerou bastante mobilização entre os leitores. Alguns me escreveram contando suas experiências ou a de alguém próximo. Outros, que por sorte nunca passaram por isso nem acompanharam de perto, escreveram comentando suas opiniões, tirando dúvidas, se solidarizando, ou ainda falando sobre prevenções e políticas públicas. Outras pessoas, ainda, escreveram para me dizer o quanto estavam desconcertadas e revoltadas pela escolha do tema para o artigo. De todo o jeito, essas reações são todas muito positivas, mesmo quando agressivas. Quando algo nos toca é importante reagir, ou pelo menos ter clareza do que sentimos e expressar isso de algum modo. Comentando com uma pessoa querida sobre a reação das pessoas frente ao artigo, essa pessoa me sugeriu trabalhar com um mito mais amoroso esta semana. Mas resolvi fazer diferente. Vamos trabalhar com um mito alquímico esta semana, isto é, um mito ligado às transformações profundas. Diante de uma situação limite, que nos leva a questionar qual o sentido de estarmos neste mundo, precisamos reavaliar quem somos, o sentido de estarmos aqui (isto é, de onde viemos e para onde pretendemos ir). Não se pode sentir o amor e dar valor a ele quando não estamos inteiros. Precisamos antes nos reconstruir.

Hoje vamos trabalhar com uma lenda do deserto mexicano, La Loba, a mulher dos ossos ou La Huesera. É uma senhora gorda que passa o dia perambulando pelo deserto. A vida no deserto é muito dura. A secura exige muito de quem caminha por lá. O sol escaldante desafia até mesmo quem já foi desde novo acostumado ao clima hostil. A existência no deserto significa uma batalha diária entre vida e morte, se percebe com muita clareza que não há garantia alguma de que terminaremos o dia vivos ou de que não amanheceremos mortos depois da noite gelada. Mas mesmo assim La Loba anda pelo deserto, atravessando-o todos os dias. Geralmente falam sobre ela como uma mulher já madura e gorda, que carrega sacos de lona. E, dentro desses sacos, se algum viajante desavisado conseguir espiar, vai ver uma porção de ossos. É isso o que La Loba faz o dia todo: caminha pelo deserto recolhendo ossos humanos e de animais, principalmente de lobos. A morte é uma presença constante no deserto, nos lembrando o tempo inteiro de que ainda estamos vivos - por enquanto!

"La Loba... La Huesera", imagem de Steeringfornorth, DeviantArt.
Quando o sol se põe no deserto, tingindo o cenário com um alaranjado intenso, La Loba se esconde da noite gelada em sua caverna. A caverna de La Loba é um lugar muito simples: uma fogueira para aquecer e criar luz, além de uma imensa pilha de ossos. Ela pega alguns ossos com cuidado e começa a montar um esqueleto de lobo. Limpa cada osso e o encaixa em seu devido lugar. Conforme a noite avança, o esqueleto de lobo volta a tomar forma, até estar completo. La Loba então caminha para perto de sua fogueira, sempre olhando para o esqueleto com atenção. E uma música lhe vem à mente. Não qualquer música, mas sim uma muito ligada à vida que retorna. Enquanto La Loba aponta as mãos para o esqueleto e canta sua música, algo inusitado acontece. O esqueleto começa a se forrar com carne... e a música continua, com mais devoção, e o lobo ganha pele, os pelos negros crescem fartos e brilhantes. La Loba canta com a alma, e o lobo sente isso, logo ele começa a respirar outra vez e a dançar a música da vida. 

Em certo ponto de sua dança, o lobo salta e corre para a noite, cada vez mais rápido. Ele cruza a noite fria do deserto com a certeza de um vencedor. Ele pode escolher a vida, pois já provou a morte. Em certo ponto de sua corrida, o lobo uiva para a lua e aumenta ainda mais a velocidade da corrida. Ele se transforma enquanto passa a correr apenas sobre as patas traseiras, os pelos dão lugar a uma pele macia, os cabelos brilhantes caem-lhe até a cintura, o rosto de lobo fica cada vez mais delicado... e logo quem corre não é mais um lobo, e sim uma mulher que corre com velocidade para o horizonte, rindo e completamente livre, ao som da música da vida.


Questões para reflexão:

1- Vamos começar pensando sobre nosso cenário. O deserto é inóspito e duro com todos. Simbolicamente, atravessar um deserto pode significar atravessar uma grande crise na nossa vida: uma situação de violência, uma doença, um acidente grave, uma perda que nos tira o chão... Não apenas nessa lenda, mas em outros mitos de outros povos, o deserto também surge durante as crises e provações. No contexto cristão, Jesus passa 40 dias no deserto, jejuando, enfrentando o clima hostil e resistindo à muitas provações. No contexto grego, durante a guerra entre titãs e deuses, em certo momento os deuses, pegos desprevenidos, fogem para o deserto. La Loba transita bem pelo deserto porque sabe onde está pisando e o que precisa (coletar ossos). Muitas vezes o deserto é, ainda, um deserto emocional. Um vazio tão grande que vai além da solidão: faz com que a pessoa sinta sua existência enquanto ser humano ameaçada, tamanha a aridez emocional em que se encontra. Não há outros com quem partilhar as belezas e dramas da vida. Não há emoções para sentir e vivenciar o que se passa. Olhe ao seu redor. Como é o seu deserto? Quais são seus maiores perigos, o que ameaça sua existência? Muito importante: o que te mantém cruzando esse deserto todos os dias? Mas uma coisa é certa. La Loba não conseguiu sua sabedoria passeando por vilarejos ou colhendo flores em jardins, mas sim entrando na crise/deserto e coletando ossos, isto é, envolvendo-se com a situação caótica e transformando-a em recursos criadores. As crises trazem um grande potencial transformador, que se abre para nós desde que tenhamos coragem de nos envolvermos com a morte/mudança.

2- Se fosse você caminhando no deserto no lugar de La Loba, como seria? Ela carrega um saco de ossos. Podemos compreender os ossos como aquilo que temos de mais básico, aquilo que nos sustenta e nos dá forma. Abra o saco que você carrega e retire os ossos, um a um. O que são seus ossos? O que te sustenta e te faz continuar caminhando em meio à aridez do deserto?

3- A lenda termina com a mulher/lobo transformada e correndo livre para além do deserto. No entanto, isso só aconteceu por ter tido coragem de enfrentar a aridez do deserto e permitiu que ela a transformasse. Podemos compreender o deserto como cenário / contexto, como já exploramos no ponto 1. A lenda se torna ainda mais transformadora quando pensamos em suas personagens (La Loba, o lobo que revive e a mulher em quem ele se transforma) como partes da psique de uma mesma pessoa. A pessoa atravessa a crise/deserto e se entrega a ela, morre, é drenada de toda vida que tinha: sua história, seus sonhos, seu corpo... só restam ossos bagunçados (nossos valores mais fortes, nosso sustentáculo mais fundamental), que a parte sábia da nossa psique (La Loba) recolhe num saco de qualquer jeito e continua a caminhar. Os ossos só saem do saco quando ela chega à sua caverna, a um local protegido e seguro onde podemos ser nós mesmos sem grandes preocupações (podemos relacionar a caverna ao lar ou, numa análise mais aprofundada, ao útero materno). Nesse ambiente seguro e fortalecedor, os ossos podem ser limpos com cuidado, removendo deles qualquer resquício de morte ou dano. É o momento de juntar os cacos, de se cuidar. E então o fogo (catalizador de processos intensos e profundos de transformação) é aceso e começa a reconstrução. Note que só podemos nos reconstruir porque vivenciamos a crise e o luto pelas perdas que inevitavelmente acontecem. Cada osso é colocado no lugar certo, mas apenas depois de limpo. Em seguida, a reconstrução continua, conforme La Loba canta a música da vida. A música é algo bastante significativo. Mesmo quando cantada, quando tem palavras, a linguagem da música não é interpretada pelo cérebro da mesma forma nem nas mesmas áreas que outros tipos de linguagem (quando se lê ou se ouve uma fala, por exemplo), a música é muito mais carregada de emoção. Isso nos aponta um dado importante: nossas emoções têm um papel fundamental no processo de reconstrução de nós mesmos, foram elas (simbolizadas na música) que trouxeram o lobo/mulher de volta à vida. A aridez emocional pode ser uma defesa frente à uma crise muito grande, a gente "desliga" e prefere não sentir... Mas apenas retomando o contato com as emoções é que poderemos sair inteiros da crise. Após um grande baque, a vida retorna de forma instintiva, como um renascimento, o lobo mostra isso. Aos poucos, conforme o lobo se arrisca a caminhar pela sombra da situação enfrentada (noite do deserto), agora fortalecido emocionalmente, é que ele pode "crescer" e ser verdadeiramente livre, escapar de suas antigas amarras, correr para o horizonte do deserto tomando uma nova forma (no ponto em que o lobo se torna mulher). Só quando permitimos que a crise nos transforme e extraia de nós pontos positivos é que somos verdadeiramente transformados por ela. Só quando tivemos coragem de nos permitir a desconstrução e em seguida a reconstrução é que poderemos correr sob a luz da lua para os horizontes do deserto. Estamos prontos para explorar novos horizontes.

4 comentários:

  1. Apenas a Bia sendo a Bia! AMEI! Não conhecia esse mito e já estou loucamente apaixonada!

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    1. Oba!! :D
      Vi esse mito pela primeira vez uns anos atrás num livro lindo, que todo mundo deveria ler, chamado "Mulheres que correm com lobos".

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  2. Quando falamos na educação intetdimensional do Prof.Antonio Carlos Gomes da Costa Mythos é justamente o aspecto ligado a transformação, A mudança que leva para pontos positivos pra vida. Toda pessoa resiliente está neste pilar da própria educação. Não conhecia essa lenda.Gosteo muito da análise e interpretação.

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