quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

52 perguntas em 52 semanas - Construindo sua história de vida

Quem acompanha o blog há mais tempo talvez se lembre de diferentes textos em que falamos sobre a importância de conhecer bem a nossa história de vida. Isso não apenas nos ajuda a saber de onde viemos, nos dando confiança e referências para enfrentar os desafios do presente, como também ajuda a planejar e compreender nossos projetos para o futuro.

Recentemente encontrei na internet um roteiro para ajudar no processo de escrita da sua história de vida na forma de 52 perguntas. A ideia é responder uma questão por semana, assim no final de um ano, o projeto estará completo. Nem preciso dizer que adorei a proposta e, como o site estava em inglês, resolvi traduzir e colocar aqui no blog! Para quem quiser ver o original, de autoria de Steve Anderson, basta entrar no site Family Search Blog (clique!). O site disponibiliza arquivos mês a mês para fazer esse projeto (em inglês). Lá você também pode criar a árvore genealógica da sua família, adicionando fotos, histórias dos seus antepassados e outras recordações.

Mas vamos ao roteiro! Lembrando como sempre: gente, esse projeto é de cada um de vocês. Ou seja, é algo pessoal, você pode responder na ordem que preferir, se alguma questão não se aplica ao seu caso você tem a liberdade de apenas falar sobre o tema proposto ou modificar o que achar necessário, ou ainda substitui-la por uma das questões extra que estão no final do questionário. Como fazer? Pode fazer num caderninho, no computador ou celular, em forma de vídeo, pode ilustrar com fotos e recordações, fazer a atividade conversando/anotando em casal ou em família...

1- Qual o seu nome completo? Explique porque seus pais te deram esse nome.

2- Quando e onde você nasceu? Descreva a casa, a vizinhança e a cidade onde você cresceu.

3- Quais lembranças você tem do seu pai? (nome, data e local de nascimento, quem eram os pais dele, etc.).

4- Quais memórias você tem da sua mãe? (nome, data e local de nascimento, quem eram os pais dela, etc.).

5- Qual tipo de trabalho seus pais tinham/têm?

6- Algum membro da sua família já faleceu? Se sim, conte as circunstâncias em que a morte aconteceu e de que forma você se lembra disso.

7- Quais dificuldades ou tragédias sua família enfrentou enquanto você crescia?

8- Tem algum traço genético marcante ou diferente na sua linhagem familiar?

9- Quais os nomes dos seus irmãos e irmãs? Descreva aspectos que se destacam em cada um deles.

10- De quais tradições ou costumes da sua família você se recorda?

11- Sua família tinha um jeito especial de celebrar datas comemorativas específicas?

12- Descreva algumas de suas lembranças sobre os seus avós.

13- Seus avós moravam perto? Se sim, conte como eles participavam da sua vida. Se não, conte sobre visitas suas a eles ou deles a você.

14- Quem eram seus tios? Conte sobre alguns deles que mais marcaram suas lembranças. Dê alguns detalhes sobre eles (nome, personalidade, coisas que você se lembra de fazer junto com eles, etc).

15- Qual escola você frequentou? Conte alguns detalhes sobre como era a escola para você e algumas lembranças mais marcantes.

16- Qual eram suas matérias preferidas na escola? Por que?

17- Quais matérias você gostava menos? Por que?

18- Quem eram seus amigos na escola? Conte como eles eram e o que fazem hoje em dia, se você souber.

19- Se você foi para a faculdade, teve formação técnica ou profissionalizante, o que você estudou? Conte algumas lembranças dessa fase.

20- Quais são suas maiores forças?

21- Com quais desafios você precisou lidar durante a sua vida?

22- Quais problemas de saúde você enfrentou ao longo da vida?

23- A religião era importante para você e sua família? Se sim, explique qual religião sua família praticava e o que ela significava para você. Explique se a religião é ou não importante para você hoje em dia.

24- Quais comidas você gostava mais e quais não gostava? Você ou outro membro da sua família tinha algum tipo de alergia alimentar?

25- Havia algum prato que seus pais preparavam que são especialmente memoráveis?

26- Como você conheceu seu companheiro/a?

27- Como foi/é o namoro de vocês? Conte sobre o dia do seu casamento.

28- Conte algumas lembranças sobre o seu companheiro/a.

29- Quantos filhos você tem? Liste seus nomes e conte algo sobre cada um deles.

30- Descreva alguns acontecimentos da sua comunidade, do país ou do mundo que você vivenciou. Como esses eventos modificaram sua vida?

31- Conte sobre suas filosofias de vida ou sua forma de ver a vida.

32- Quais valores pessoais são mais importantes para você? O que você fez/faz para ensinar esses valores aos seus filhos, netos ou outras pessoas?

33- Liste ao menos 5 pessoas que tiveram ou têm influência marcante sobre a sua vida. O que eles fizeram ou fazem para ter tanto destaque para você?

34- Quais são 20 pontos sobre você que te fazem único?

35- Conte 50 coisas pelas quais você é grato.

36- O que você pensa sobre dinheiro?

37- Se você pudesse passar um dia com qualquer pessoa famosa, quem seria essa pessoa e o que vocês fariam?

38- O que te dá medo?

39- O que te faz parar e dizer: "uau!"?

40- O que você gosta de fazer no seu tempo livre?

41- Se você pudesse voltar no tempo e passar uma hora com você mesmo aos 15 anos, o que você diria para sua versão mais jovem?

42- Quais são alguns dos seus talentos? Conte como você os descobriu e explique o que você tem feito para cultivá-los e melhorá-los. Descreva como os seus talentos afetaram sua vida.

43- Com o que você trabalha? Como você escolheu essa carreira?

44- Quais trabalhos você teve ao longo da sua vida? Conte algumas das experiências que mais se recorda nesses trabalhos.

45- Quais foram os 5 acontecimentos que mais marcaram sua vida? Quais efeitos cada um deles teve sobre você?

46- Quais lições de vida você aprendeu e gostaria de passar a diante? 

47- Em quantos lugares você já morou? Descreva brevemente cada um deles, por que você morava lá e por que se mudou.

48- Se alguém te desse $10.000,00 com a condição de não poder gastar o dinheiro com você e nem dar aos familiares ou amigos, como você usaria o dinheiro?

49- Se você pudesse voltar no tempo e fazer tudo outra vez, o que mudaria?

50- Depois que você tiver morrido, pelo que gostaria de ser lembrado? O que você tem feito agora para deixar um legado que valeira a pena lembrar?

51- Se você pudesse deixar 5 conselhos para a posteridade, quais seriam?

52- Você já viajou para algum lugar fora do seu país? Se sim, conte o que motivou essas viagens e algumas lembranças sobre elas.

Questões extra:

1- Se um jornal quisesse contar uma história sobre você, sobre o que ela seria?

2- Quais "manias" populares você já vivenciou?

3- Como você passava ou passa os verões?

4- Quais foram suas férias mais memoráveis?

5- Você tem ou já teve animais de estimação? Se sim, conte um pouco sobre eles.

6- Liste 20 coisas sem as quais o mundo seria um lugar melhor na sua opinião.


Boa viagem pela sua história, espero que gostem da experiência!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Como um neuropsicólogo trabalha?

O neuropsicólogo trabalha com a interação entre cérebro/sistema nervoso, comportamento, emoção e cognição de maneira integrada, buscando levar saúde e qualidade de vida para seus pacientes. Com frequência, o trabalho do neuropsicólogo é feito em parceria com outros profissionais, como médicos (neurologistas, psiquiatras, cardiologistas, etc.), psicólogos clínicos, educadores, e outros conforme o caso de cada paciente.

O que faz um neuropsicólogo?
  • Contribui para o diagnóstico, diferenciando doenças neurológicas e transtornos psiquiátricos;
  • Avaliação das funções neuropsicológicas (atenção, memória, pensamento abstrato, controle do comportamento emocional, planejamento, etc.), procurando alterações e, caso encontre, avaliando o grau do comprometimento;
  • Monitora a evolução de problemas psicológicos, neurológicos ou psiquiátricos, de tratamentos (clínicos ou medicamentosos) e de cirurgias;
  • Planeja e executa programas de habilitação e reabilitação de funções alteradas.
Como esse trabalho é feito?
  • Anamnese completa, ou seja, um questionário bem detalhado sobre a saúde e outros dados do paciente, como sintomas físicos e emocionais, dados sobre o sono, a alimentação, medicamentos que usa ou tratamentos pelos quais está passando, dados familiares e sociais.
  • Avaliação neuropsicológica, isto é, aplicação de testes e procedimentos para avaliar as funções neuropsicológicas do paciente, incluindo também a avaliação da inteligência, traços psicológicos e dados emocionais, conforme cada caso.
  • Orientações ao paciente, familiares e outros profissionais envolvidos (equipe de saúde, educadores, etc.) sobre o problema e o tratamento.
  • Habilitação e/ou reabilitação de funções perdidas, lentificadas ou não desenvolvidas, através de exercícios (motores e cognitivos), atividades lúdicas e psicoterapia focada no desenvolvimento dessas funções.
De tempos em tempos, o neuropsicólogo irá repetir a avaliação, o que permite acompanhar a evolução do paciente e, se for o caso, ajustar o tratamento. O tempo de intervalo entre as avaliações depende de cada caso e do tipo de intervenção realizada. Nosso objetivo maior sempre é promover a saúde, independência e qualidade de vida do paciente.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O que é neuropsicologia?

Qual a diferença entre neuropsicologia e neurociências?

A neurociência é a área de estudo do sistema nervoso central. Isso engloba diferentes ciências e ramos, iniciando na medicina (neurologia) e na psicologia (neuropsicologia) e abrangendo, também, outros ramos de conhecimento, como a teologia (neuroteologia), a educação (neuropedagogia/neuropsicopedagogia) e o marketing (neuromarketing).

Assim, a neuropsicologia é um ramo da psicologia e das neurociências que estuda o sistema nervoso central em suas relações com a cognição, as emoções e o comportamento.

Qual a diferença entre o neuropsicólogo, o psicólogo, o neurocientista e o neurologista?

O psicólogo fez graduação em psicologia, que o habilita para trabalhar em contextos diversos, como em clínicas, hospitais, empresas, escolas... Caso ele tenha um título de especialista em neuropsicologia, torna-se neuropsicólogo. Já o neurologista fez graduação em medicina e residência em neurologia. 

Enquanto o neurologista cuida de doenças do sistema nervoso (como cefaléias, fraquezas ou falta de sensibilidade e de movimento de partes do corpo, doenças desmielinizantes como a esclerose, tonturas e vertigens, etc.) do ponto de vista biológico, o neuropsicólogo cuida das funções neuropsicológicas (como a atenção, a percepção, o comportamento, a regulação das emoções, a memória, etc.), geralmente em relação com casos neurológicos, psiquiátricos ou psicológicos. Essas áreas trabalham juntas, pois se complementam.

Portanto, tanto o neuropsicólogo quanto o neurologista pertencem às neurociências, mas ao mesmo tempo, nem todo neurocientista é neuropsicólogo ou neurologista.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

EQM - Experiência de Quase Morte

Depois de um tempo sem postar no blog, voltamos com novidades!

Como muitas pessoas que já acompanhavam o blog sabem, estou fazendo doutorado na PUC-SP, estive nos últimos tempos mergulhada nesse mundo de aulas, leituras, pesquisas e muita neurociência!

Hoje divido com vocês o vídeo abaixo, que é uma conferência que dei na USP e faz parte de um ciclo de palestras sobre fenômenos anômalos (que são fenômenos para os quais a ciência ainda não tem explicação, como EQM, experiência fora do corpo, curas "milagrosas", interferência da mente na matéria, entre tantos outros). Esses estudos buscam compreender esses fenômenos, não comprovando se são verdadeiros ou farsas, e sim buscando entender o sujeito que passa por isso e as consequências (favoráveis ou desfavoráveis) que trazem para o quadro de saúde e para a vida de maneira geral.

Espero que gostem da aula, no canal do Inter Psi USP no YouTube todas as aulas desse ciclo estão disponíveis gratuitamente.


quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A geração que não se preparou para o mercado de trabalho

Alguns chamam de "geração Y". Outros, apenas de "jovens". Estamos falando da geração atual, que ingressa ou ingressou há pouco no mercado de trabalho e, há tempos, provoca discussões e reflexões sobre a forma como as empresas e o mundo do trabalho poderiam ser inovados. De fato, muitas empresas se humanizaram em diversos pontos, indo desde as roupas menos formais (algumas trocaram a roupa social por jeans, camiseta e até bermuda!), maior informalidade na interação entre os colaboradores, ambiente descontraído, com jogos e video games, e mesmo a forma de disposição da mobília, que passou a favorecer a interação. Claro que isso é interessante e há pontos positivos nesse novo "estilo" de trabalhar, como a melhora na produtividade e a redução do estresse, para citar alguns.

No entanto, sendo este um espaço voltado para a psicologia e para o autoconhecimento, o ponto a ser discutido não é a empresa, mas sim os seres humanos que a "animam". Hoje em dia, boa parte das empresas já não são tão formais e permitem uma liberdade maior que décadas atrás, quando não apenas o trabalho, mas o mundo de forma geral (as escolas, a família, a sociedade) adotava posturas muito mais rígidas e hierarquizadas. O ponto é que ainda assim, tenho ouvido de muitos jovens que não conseguem se adaptar às formalidades e exigências do mundo do trabalho. 

Escritório da Google. Lembrando que a questão aqui não é a maior ou menor formalidade no local de trabalho,
e sim que seja o contexto como for, ainda existem prazos, responsabilidades e a expectativa de um comportamento adulto.
Minha primeira reação é perguntar se acontece algo irregular no contexto em que atuam, ou seja, se são registrados e pagos conforme dizem as leis, se sofrem algum tipo de agressão ou assédio (moral, sexual...), se o ambiente é hostil... Prontamente, respondem que tudo é correto como deveria. Então, pergunto se gostam da profissão que têm. Muitas vezes, respondem que adoram. Conforme a conversa flui, percebo que são jovens que, infelizmente, não foram preparados para o mundo do trabalho. Não se engane com o meu comentário! Muitos têm uma formação impecável: falam diversas línguas, estudaram fora do país, fizeram pós graduação, cursos extracurriculares, tocam algum instrumento, frequentam museus, teatros, exposições, veem filmes, leem... Mas, apesar do preparo intelectual e da competência, não estão felizes.

O problema não é esse. A raiz é o aspecto emocional. Ingressar no mundo do trabalho é algo muito ligado a ingressar no mundo adulto. Não é algo que se limita à inteligência ou às capacidades. É algo marcado pelas nossas emoções. São elas que dão o colorido à forma como falamos e nos comportamos, à forma como criamos laços e interagimos com as pessoas, por fim, à forma como afetamos e somos afetados pelo nosso ambiente. Em muitos casos, não é a falta de preparo acadêmico ou a inexperiência que dificulta a vida profissional, e sim a falta de preparo emocional. Foram educados para saber bastante, mas não para virar adultos. Para liderar, mas não para respeitar a ordem e a hierarquia. E sofrem com isso. Angustiam-se. Adoecem.

Queixam-se que o trabalho é entediante, que não permite "realizar outros sonhos", como viajar, ter tempo livre, ser reconhecido e admirado. Não vêem que, para que isso ocorra, antes é preciso  "fazer por merecer", trabalhar com envolvimento e competência. Uma pessoa querida costuma dizer que só quem admira de forma despretensiosa é mãe e pai, e olhe lá! Queixam-se que o chefe não os entende, mas não vêem que o chefe não está lá para mimar ou entender suas necessidades emocionais, apenas para organizar e coordenar as tarefas referentes ao trabalho. Querem "seguir seus sonhos" como todo mundo supostamente faz, mas ignoram que a própria expressão "seguir os sonhos" ganhou popularidade apenas nas últimas décadas do século XX, e até então, sonho e realidade eram contextos mais possíveis de serem conciliados. Queixam-se que o mundo é duro e burocrático, que o trabalho deveria ser mais leve e informal, mas, muitas vezes, burocratizam as relações da vida pessoal e os momentos de lazer de forma mais intensa que as gerações anteriores supostamente faziam. Essas gerações mais antigas ao menos encontravam uma "folguinha" da pressão e da "dureza" do mundo do trabalho entre familiares, bons amigos e domingos de sossego. Preparar-se para o trabalho é preparar-se para crescer. E isso inclui os aspectos emocionais: maturidade, jogo de cintura e uma dose saudável de disciplina, sem perder a maleabilidade e o sorriso no rosto.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Ágora - Família não aceita a orientação sexual da filha


Bom dia Bia, tudo bom? Então, eu e minha mãe somos muito amigas e tudo mais. Somo muito unidas. Ela sempre me disse que eu posso contar qualquer coisa a ela. Bom, acontece que eu confiei e acabei contando a ela que havia beijado uma garota e ela praticamente surtou.

Ela me xingou, chorou, disse que tinha vergonha de mim, etc. A partir daí eu resolvi não tocar mais no assunto e nem em nenhum outro. Passei a não contar nada sobre mim e novas experiências a ela. Eu entendo que pode ter sido um choque, mas não esperava esse tipo de reação. Eu esperava uma conversa civilizada. Hoje em dia ela fica em cima de mim, perguntando com quem ando e dizendo que tem "trauma" da situação. Procuro não discutir, mas isso me magoa muito. Eu não sei como faze-la aceitar esse meu lado (sou bissexual na verdade). De qualquer forma, sinto que no futuro isso vai me prejudicar muito. O que eu faço?


Obrigada pela atenção e desculpe o incômodo.
Anônima


Olá, Anônima.

Essa situação infelizmente é muito comum. Muitas famílias reagem dessa maneira, e eu sei como isso é chato. Se a relação entre você e sua mãe sempre foi boa, provavelmente ela só precisa de um tempo para compreender. Estranho isso não é? Estranho pensar como nossos pais, que sempre foram pessoas boas conosco, que são pessoas coerentes, podem "não entender" o amor fora dos padrões tradicionais. Afinal, amor é amor, beijos são beijos, e nós sabemos que isso é o que importa.

Não sei a idade da sua mãe. Mas especialmente se ela já for mais velha, ou se recebeu uma educação muito rígida, na certa ela cresceu escutando que o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo é "errado", já associa a homo/bissexualidade a uma série de estereótipos de abuso de drogas, criminalidade, doenças, prostituição... E por mais que a gente saiba que não é nada disso, por mais que hoje em dia tudo seja mais liberal (ainda bem!), por mais que a gente queira gritar que eles estão malucos, é bem difícil para eles desconstruir essas ideias e passar a ver de outra forma. Mas não é impossível. Muito provavelmente, conforme a sua mãe digerir a novidade, conforme ela perceber que você continua a ser quem sempre foi, a filha carinhosa e companheira, ela começará a mudar a visão dela sobre a homossexualidade.

Tem pais ainda que agem assim por medo. Medo do preconceito e da violência que pode acontecer nas ruas, infelizmente tem muita gente ruim por aí. E nesse medo, acabam reproduzindo o preconceito dentro de casa, o que pode ser ainda pior. Uma coisa é ser discriminada ou hostilizada por um colega, outra coisa bem diferente é enfrentar isso dentro de casa. Você confiou nela, talvez esperasse algum apoio emocional ou quem sabe uma conversa tranquila (como certamente teria acontecido se você contasse que beijou um garoto), e não esse tipo de reação. Provavelmente, quando sua mãe digerir melhor a ideia, vai perceber que ser hetero, homo, bissexual, é apenas um detalhe. Não muda caráter, e muito menos o amor que une você e sua mãe.

Não acho que se fechar pode ser uma boa escolha. Por um lado, ela não vai se irritar (e nem você). Por outro lado, fica aquela tensão chata no ar, aquele sentimento de confiança perdida, de que tudo pode explodir a qualquer momento. Dê um tempo a ela, mas não abra mão de falar sobre isso. Sem bater de frente, sem rebeldia, não é por aí que se quebram tabus e preconceitos. Aos poucos, com muita calma. Pode levar tempo, mas como você contou, o relacionamento entre vocês sempre foi bom, sua mãe te ama e se preocupa com você, logo ela perceberá que juntas vocês poderão superar essas tensões, verá que o que importa para uma mãe é ver a filha bem e feliz, tanto faz a orientação sexual. Um dia ela percebe que vale mais aceitar sua orientação sexual do que te ver frustrada e reprimida só para estar no padrão. Na convivência ela aprende que gostar de meninos ou de meninas (ou, por que não, dos dois) não muda o caráter de ninguém.

Se as coisas não melhorarem, não hesite em procurar um psicólogo (para você, pois não é nada fácil enfrentar isso sozinha; para ela superar essas ideias ultrapassadas e refletir um pouco; ou ainda para as duas juntas poderem se entender e conversar de forma franca e aberta). Importante: psicólogo não muda a orientação sexual de ninguém. Homossexualidade não é doença e nem transtorno psíquico, e sim um dado sobre a nossa identidade, sobre o nosso jeito de ser, como seguir esta ou aquela religião, torcer para determinado time, ter certa preferência política... Somos o que somos, e o que vale nessa vida é a gente ser sincera com a gente mesma e coerente com os nossos sentimentos e as nossas verdades.

Você foi uma menina muito corajosa. Eu sei que agora pode não parecer, mas com respeito, paciência e muita conversa, é possível superar esse conflito entre vocês. Se precisar conversar, tem aqui uma amiga. 

Beijos,
Bia


Para participar da coluna Ágora, envie a sua pergunta para o email bf.carunchio@gmail.com, você também pode participar enviando sua pergunta através da nossa página no Facebook ou do meu perfil pessoal.  Você tem a opção de se identificar ou de se manter como anônimo.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Rejeição e dor: neurociência e evolução

A rejeição é um sentimento muito frequente na vida do ser humano. Ele surge sempre que nos sentimos deixados de lado, abandonados ou não fazendo parte de um grupo do qual gostaríamos de participar. O sentimento de rejeição está na raiz de problemas como a timidez, dificuldades de relacionamento, medo de falar em público, insegurança ao compartilhar ideias ou sentimentos, entre outros.

Para a psicologia evolucionária, área da psicologia que estuda os processos psicológicos de um ponto de vista evolutivo, o sentimento de rejeição foi um ganho para a espécie humana. O homem primitivo vivia em tribos, e precisavam cooperar e confiar profundamente uns nos outros para que a tribo sobrevivesse. Assim, quando alguém fazia algo que ia contra a ética do grupo, poderia ser abandonado pelo grupo, condenado a viver sozinho. Essa era uma prática comum entre o homem primitivo e mesmo na Antiguidade, por exemplo entre os gregos, que chamavam idiotas aqueles condenados a viver fora das cidades-estado. Ser rejeitado pelo grupo, na época do homem primitivo, era quase uma sentença de morte. Havia muitos perigos. Animais selvagens, dificuldade em conseguir alimento, a própria exposição ao frio ou a condições climáticas adversas. Ninguém sobrevivia por muito tempo fora do grupo. Com isso, na intensão de preservar a vida, nosso cérebro criou redes neurais que nos levaram a temer ou evitar o sentimento de rejeição. Nesse sentido, o sentimento de rejeição foi um ganho evolutivo, embora nem sempre seja algo funcional na vida do ser humano contemporâneo.

Imagem: Kross et al.
Se sentir rejeitado dói. Um grupo de cientistas liderados pelo Dr. Ethan Kross, do departamento de psicologia da Universidade de Michigan, fizeram um estudo comparando a dor da rejeição e a dor física. Surpreendentemente, várias áreas do cérebro ativadas durante uma experiência de rejeição são as mesmas áreas do cérebro que também são ativadas em situações de dor física. Entre essas áreas, temos o tálamo, o giro do cíngulo e estruturas do sistema límbico, responsável pelas emoções e pelo nosso comportamento emocional. Para ler o estudo do Dr Kross, clique aqui. 

Isso nos permite pensar no conceito de dor emocional. Em psicologia, consideramos que uma emoção ou situação causa dor emocional evidente sempre que o paciente se refere a ela em termos de dores físicas. Isso foi uma punhalada nas minhas costas; me corta o coração ver Fulano desse jeito; essa situação é uma grande dor de cabeça; a vontade que tenho é vomitar e colocar para fora tudo isso que sinto; quando ele disse aquilo, tocou na minha ferida; quando isso acontece, pisam no meu calo, entre tantas outras expressões de linguagem que no dia a dia nem sempre damos tanta atenção.

Assim, o sentimento de rejeição e as dores emocionais não são "besteiras". Lembre-se de um momento em que se sentiu rejeitado. Provavelmente essa lembrança ainda dói, caso a situação não tenha sido curada e superada. O sentimento de rejeição, como toda dor emocional ou física, precisa ser examinado com cuidado e, quando é muito forte ou muito frequente, procurar ajuda profissional é uma boa atitude. Não são coisas "esquecidas" com facilidade e precisam de atenção para que não criem redes neurais e comportamentos de esquiva/fuga em situações da vida que poderiam ser vivenciadas de forma leve e prazerosa.